Intervenções no Fórum de Debate 2020 (Seminário 11, Lacan)

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Leitura explicativa do capítulo V, Tiquê e Autômaton

André V. L. Niffinegger

psicanalista e membro da ELP-Brasília

O tema da lição de 12 de fevereiro de 1964 é mais amplo do que parece. Ele se inicia no fim da aula anterior e termina no início da subsequente.

Ao fim da anterior, Lacan nos apresenta o que ele entende por função da repetição e recorda que Freud articulou essa noção inicialmente em 1914, no artigo Rememoração, repetição e perlaboração.

Logo nos alerta para uma distinção inicial entre rememoração e repetição. Em análise, o sujeito é capaz de rememorar sua biografia até um certo limite. Encontrando o real, a rememoração encontra um muro.

Nesse momento, Lacan define o real como aquilo que sempre retorna ao mesmo lugar. Lugar em que o sujeito enquanto res cogitans não o encontra. De fato, a história da descoberta freudiana do fenômeno darepetição se define por ter apontado para relação entre pensamento e real.

Dá mais um passo e indica que, em Freud, repetição também não se confunde com reprodução(aquilo que se acreditava fazer com o método catártico). A repetição havia aparecido inicialmente de modo obscuro, como uma reprodução ou presentificação em ato.

“Ato” parece ser uma palavra valiosa, pois Lacan a escreve em seu quadro negro, acompanhada de um ponto de interrogação, e alerta que, ao falarmos da relação da repetição com o real, “ato” estará no horizonte. Vamos aceitá-la como uma bússola. Afinal, já entramos no tema perdidos, porque nada é tão misterioso na teoria de Freud, Lacan admite, quanto o conceito de repetição. Principalmente, se articularmos repetição àquela bipartição de base, opondo principio do prazer ao princípio de realidade.

Lacan anuncia o tema da aula de que vou tratar, e se refere à Física de Aristóteles e a duas noções ali tratadas na teoria das causas. Trata-se de revisar a contribuição do filósofo, utilizando-se dos conceitos de automaton e tuchè, traduzindo-os, respectivamente pelas ideias de “rede de significantes” e “encontro do real”.

*

Inicia a quinta sessão do seminário para continuar o exame do conceito de repetição no discurso de Freud e na experiência da psicanálise.

No gesto de abertura da lição, defende a psicanálise da acusação de que ela conduziria a um “idealismo” – o que parece ser, à época do seminário, uma crítica marxista. Nenhuma praxis é mais orientada do que a análise em direção ao que, no centro da experiencia, é o núcleo do real. O que a psicanálise descobriu seria precisamente esse encontro essencial de um real que, contudo, esquiva-se.

Lacan escreve duas palavras do grego clássico em seu quadro-negro: tuché e automaton. O real está para além do automaton – entendido como a insitência dos signos (sob o comando do princípio do prazer) – fato que justificaria a preocupação da pesquisa freudiana. Preocupação evidente em “Homem dos Lobos”, caso clínico em que Freud relata o esforço para descobrir qual o encontro inicial, o real por detrás da fantasia.

Por que razão Lacan convoca essas noções para elaborar o conceito de repetição? Afinal, ele está pesquisando a lógica de causação do fenômeno? Efetivamente, Aristóteles trata de tuché e automaton – acaso e espontaneidade – no seio da sua classificação das causas dos eventos.

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Seguindo a sugestão de Lacan, vamos dar uma passada de olhos no texto do filósofo grego.

Aristóteles diz que é necessário examinar o acaso e a espontaneidade para descobrir se são uma só e mesma coisa ou coisas diferentes e de que maneira eles são de fato causas.

Considera que, em meio aos eventos, alguns se produzem com um propósito, outros, não. Entre aqueles com propósito, uns se produzem por meio de uma escolha refletida e outros não.

O acaso e o espontâneo se referem ao evento que se produz em vista de uma finalidade ou propósito. É proposital tudo aquilo que pode ser produzido pelo pensamento e tudo o que acontece do fato da natureza.

Quando os eventos se produzem por acidente, dizemos que são efeitos do acaso. Assim, para Aristóteles, o acaso é uma causa por acidente, em se tratando dos eventos que têm um propósito e são consequências de uma escolha.

Em suma, o acaso e a espontaneidade são duas causas por acidente no domínio das coisas que não podem se produzir de maneira absoluta e, dentre elas, das coisas que se produzem com um propósito.

Sobre a diferença entre acaso e espontaneidade, a espontaneidade é mais extensa: tudo que se produz por acaso é também espontâneo. Dentre o que se produz espontaneamente, se produzem por acaso todas aquelas objeto de uma escolha racional. Uma prova disso é o uso da expressão “em vão”. É empregada quando o propósito não se produz, mas somente em relação àquilo que é feito em vista de uma finalidade. Por exemplo, se fizermos um passeio com o objetivo de distração, mas aquele que passeia não se distrai, dizemos que o passeio foi em vão.

Aristóteles conclui que um evento é espontâneo quando se produz de si mesmo em vão [automatonforma-se da união de “auto”, de si mesmo e “matèn”, em vão. Automaton significa literalmente, o que se produz em vão e de si mesmo]. Uma pedra que cai sem o propósito de atingir e machucar alguém, teve uma queda “automática”, espontânea.

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Voltando ao seminário… (I, §5)

Lacan ensina que não se deve confundir a repetição com o retorno espontâneo dos signos (automaton!), nem com a reprodução (rememoração atuada).

A natureza da repetição foi obscurecida por sua identificação ao conceito de “transferência”. Recordando Freud, afirma que, quanto à relação ao real na tranferência nada pode ser apreendido in effigie, in absentia.

Ora, a tranferência nos é dada conceitualmente precisamente como uma relação à ausência.  O sujeito se dirige ao analista, reiterando uma fala ou comportamento que é endereçada a uma imago irreal, a uma efígie. Portanto, para Lacan, a ambiguidade da realidade em causa na transferência deve ser desfeita a partir do exame da função do real na repetição.

Está claro para vocês por que a confusão dos dois conceitos é um obstáculo no caminho da pesquisa de Lacan?

Até esse ponto do argumento, ainda não era evidente o porquê das noções aristotélicas escritas no quadro. Mas, neste momento, Lacan articula a ideia de tuché na expressão: “o que se repete é algo sempre produzido como por acaso[1] (I, §6) O sujeito perde acidentalmente uma sessão ou relata ter ocorrido por acaso algo que lhe impediu realizar sua vontade. É precisamente com essas dificuldades, tropeços e embaraços, narrados como acasos, que o psicanalista vai ter que se deparar.

Lacan prossegue. A função da tuché, i.e., do real como encontro enquanto falho, apresentou-se primeiramente na história psicanalítica sob forma de traumatismo. (I, §7)

Não é notável que, na origem da experiência analítica, o real seja apresentado na forma do que nele há de inassimilável – na forma do trauma, determinando toda a sua sequência e lhe impondo uma origem na aparência acidental? Encontramo-nos aí no cerne do que pode nos permitir compreender o caráter radical da noção conflictual introduzida pela oposição do princípio do prazer ao princípio da realidade – é por isso que não se poderia conceber o princípio da realidade como tendo, por sua ascendência, a última palavra.[2]

Para Lacan entender por que há esse retono (no sonho) de algo que demonstra a insistência do trauma, ele relaciona traumatismo e repetição. Se o princípio do prazer recusa o desprazer, o que explica o retorno da cena traumática no que, segundo Freud, seria o instrumento de realização do Wunsh do sujeito? Afinal, qual é a função da repetição do trauma se nada parece justificá-la do ponto de vista do princípio do prazer?

Para Lacan (I, §10), o sistema da realidade deixa prisioneira uma parte essencial do que está em relação ao real, prisioneira nas redes do processo primário (correlato do princípio do prazer). O processo primário – aquilo que Lacan tentou definir sob a forma de inconsciente – deve ser apreendido na sua experiência de ruptura entre percepção e consciência, no local intemporal apelidado de “outra cena” por Freud. Nessa direção, Lacan cerne precisamente o campo da experiência analítica em que o fenômeno da repetição pode ser melhor contemplado.

O argumento ganha força com um exemplo pessoal. Ele descreve a situação em que, dormindo, ouve barulhos provocados por batidas. A percepção do barulho acarreta um sonho que manifestava outra coisa que não as batidas. Finalmente, atinge o momento do despertar e forma-se a consciência de que estava dormindo há pouco. Ele se pergunta o que é o sonhador no momento entre a percepção do barulho e a tomada de consciência desperta, no momento preciso em que a percepção deu lugar ao sonho, mas ainda não havia adentrado na representação consciente de si mesmo e da sua situação. (II, §2,3,4)

Para aprofundar, Lacan invoca outro exemplo mais revelador, um sonho relatado na Traumdeutung.[3]

*

Um pai passara dias e noites de vigília à cabeceira do leito de seu filho enfermo. Após a morte do menino, ele foi para o quarto contíguo para descansar, mas deixou a porta aberta, de maneira a poder enxergar o aposento em que jazia o corpo.

Após horas de sono, o pai sonhou que seu filho estava de pé junto a sua cama, que o tomou pelo braço e lhe sussurrou em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando?” Acordou, notou um clarão intenso no quarto contíguo, correu até lá e constatou que o velho vigia caíra no sono e a mortalha e um dos braços do cadáver tinham sido queimados por uma vela tombada.

A explicação desse sonho é simples. O clarão de luz chegou aos olhos do homem adormecido e o levou à conclusão a que teria chegado se estivesse acordado: que uma vela ateara fogo nas proximidades do corpo. O conteúdo do sonho deve ter sido sobredeterminado e as palavras proferidas pelo menino devem ter sido compostas de expressões que ele realmente proferira em vida. Por exemplo, “Estou queimando” pode ter sido dito em meio à febre e “Pai, não vês?” talvez tenha derivado de alguma outra situação carregada de afeto.

Por que produzir um sonho em tais circunstâncias, quando se fazia necessário o despertar rápido? E aqui observaremos que esse sonho serviu à realização de um desejo. O filho morto comportou-se no sonho como se estivesse vivo. Em nome da realização desse desejo, o pai prolongou seu sono.

Até aqui, Freud se concentrou no sentido secreto dos sonhos, bem como no trabalho do sonho para ocultá-lo. Mas agora esbarrou num sonho que não levanta problemas de interpretação e cujo sentido é óbvio.

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Me pergunto por que Lacan evoca esse sonho para tratar da repetição e cogito uma resposta. Lacan vai tratar da repetição utilizando-se desse momento em que o sonho propicia, entre a percepção e a consciência, a emergência da “outra cena”. Lacan delimita esse espaço, que é propriamente um espaço de formação do inconsciente, no caso, formações oníricas, e recorta aí o fenômeno da repetição e o que seria a sua causa.

Temos em mãos um exemplo onírico que dificilmente confirma a tese de que o sonho é a realização de uma desejo frustrado. Vemos surgir, na Traumdeutung, uma função do sonho aparentemente secundária. Então, o que Freud quer dizer ao sublinhar que esse sonho confirma sua tese?

Se a função do sonho é proteger e prolongar o sono; se o sonho, afinal de contas, pode se aproximar tão de perto da realidade externa que o provoca, não poderia responder a esse estímulo sem que o sonhador precise despertar? O fenômeno do sonambulismo não seria uma prova disso? A questão seria então: “Qu’est-ce qui réveille ?” O que acorda? O que produz o despertar? Não seria, no sonho, uma outra realidade?

Lacan afirma que há mais realidade na mensagem do garoto ao pai do que no barulho e na luz da chama. (Especula: talvez não fosse a causa da morte do filho ou o remorso do pai?). Parece jogar com a significação da palavra “realidade”. Trata-se da mesma realidade até então evocada para a elaboração do conceito de repetição, do encontro com o real? Estaria se perguntando qual é a realidade mais relevante para a psicanálise e definindo suas condições teóricas?

Nesse movimento, Lacan formula uma pergunta cuja escolha das palavras novamente nos remete à tuché:

Que encontro pode haver daí por diante com esse ser inerte para sempre – mesmo a ser devorado pelas chamas – senão aquele que se passa justamente no momento em que a chama, por acidente  como por acaso, vem se juntar a ele? Onde está ela, a realidade, neste acidente? senão que algo se repete, mais fatal em suma, por meio da realidade (…)[4]

O encontro, sempre perdido (manquée) se passou entre o sonho e o despertar; entre aquele que ainda dorme e aquele que sonhou para não ser derpertado. Quanto à realização do desejo, não se trata de sustentar o filho vivo, e a criança morta tomando o pai pelo braço aponta para um além que se faz “ouvir” no sonho. (II, §14)

É uma passagem enigmática. Lacan critica a conclusão de Freud para dizer que o sonho não se presta a realizar o desejo de preservar a vida do filho. Lacan vai dizer: “Le désir s’y présentifie de la perte imagée au point le plus cruel de l’objet”. O desejo está presente nesse sonho, segundo Lacan, não porque ele fantasia que a criança ainda estaria viva, mas está presente no sonho pela perda do objeto. A perda, transformada em imagem no ponto mais cruel, i. e., a criança pegando fogo. É a perda do objeto que equivaleao desejo.

Em seguida, Lacan diz “C’est que dans le rêve, se fasse la rencontre vraiment unique, après quoi le désir n’a plus à subsister que comme deuil (…)” [staferla][5] Ou seja, o sonho representa o encontro do pai com o filho, que ele chama de um encontro verdadeiramente único, o encontro sempre falho, que nunca se realiza, no real.

Após o pai despertar, esse desejo vai dar lugar ao luto. (É o que Lacan quer dizer com o oração suprimida na transcrição de J.A. Miller: “après quoi le désir n’a plus à subsister que comme deuil”). Depois desse encontro único que o sonho permite realizar de forma imagética, o desejo não persistirá a não ser como luto.

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[Digressão]: Lacan havia chamado nossa atenção para a noção de “ato”, que deveria sempre estar no horizonte como um ponto de fuga para nosso olhar investigativo, mas, contrariando nossa expectativa, até agora nesta lição, não dá nenhum exemplo do que seria a repetição por meio da atuação do sujeito. Talvez o fará, ao final desse capítulo, com a análise do jogo da bobina manipulada por um bebê de que Freud extraiu o famoso binômio alemão do “fort-da”, mencionado em “Além do princípio do prazer”.

Em relação ao “ato”, Freud diz que o sujeito consegue narrar suas memórias em análise, até um certo ponto, a partir do qual sua forma de se lembrar passa a ser a atuação, a repetição de atos não percebida como tal pelo sujeito, aos modos de um ator que encena, sem perceber que está no palco e que a cortina está aberta.[6] No artigo Rememoração, repetição e elaboração, leremos:

(…) o paciente não recorda coisa alguma do que acontenceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo. Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico (…)[7]

Lacan aborda o tema nesta lição, não pelo exemplo de um ato físico, mas pelo exemplo de um sonho. Haveria então uma correlação entre o ato onírico, produzido na “outra cena” e o ato motor, encenado no palco do quotidiano?

Pensando nesses termos, poderíamos dizer que o fenômeno da repetição se manifesta, durante o sono por meio de formação onírica do inconciente e, em estado de vigília, a repetição – ocasionada pela tuché, o encontro sempre perdido frente ao real – se daria por meio da encenação de um texto cujo dramaturgo foi barrado na porta da consciência.

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Voltando ao percurso do seminário (II, §18), Lacan revela o que gostaria que fosse retido por seus ouvintes: aquilo que é fulcral a respeito desse “encontro como para sempre perdido”.

O lugar do real tem precedência e determina a função de repetição; real que vai do trauma à fantasia, sendo a fantasia a tela que o disfarça. Essa realidade, o acidente, o barulhinho, que pode levar ao despertar só tem o condão de fazer acordar em razão de uma “outra realidade escondida atrás da falta daquilo que tem o lugar de representação”, a pulsão (Trieb) (II, §19) Lacan introduz aqui a noção de pulsão, mas nos adverte que é algo ainda a ser elaborado futuramente.

Quanto ao real, temos que procurá-lo para além do sonho, do disfarce, por detrás da falta da representação que é falsificada por algo que lhe faz as vezes em seu lugar (tenant-lieu).

Lacan conclui esse momento da aula afirmando que é o real que comanda, em última instância, nossas atividades. É o que a psicanálise nos revela.


Leitura explicativa do capítulo XIV, “A pulsão parcial e seu circuito” 

André V. L. Niffinegger

psicanalista e membro da ELP-Brasília

3 de setembro de 2020

Nesta lição, Lacan retoma seu discurso sobre a pulsão. Relembra que iniciou sua abordagem do conceito após ter postulado que a transferência é o que se manifesta, na experiência, como a atuação (mise en acte) da realidade do inconsciente. Realidade esta que Lacan afirma ser a sexualidade.

Lacan se debruçará principalmente sobre esse ponto, sobre o sentido e alcance dessa afirmação.

Iniciando a reflexão, diz que a sexualidade, ou a ação que a presentifica, é desnudada pelo aparecimento do amor, e pergunta aos ouvintes: “– O amor representa o ápice inequívoco que torna presente a sexualidade no aqui e agora da transferência?”. “– De modo algum”, responderia Freud em A pulsão e seus destinos (texto trabalhado por Lacan nesta lição).

O artigo de Freud divide-se em duas vertentes: na primeira parte, há a decomposição da pulsão; na segunda, o exame do ato do amor (das Lieben). Lacan nos alerta para o fato de que tratará do segundo tema.

Freud é claro em dizer que o amor de modo algum poderia ser considerado como o representante da convergência do esforço do sexual, i.e., da totalidade que resumiria a essência e função da sexualidade (die ganze Sexualstrebung).

Em uma das traduções brasileiras, esta é a passagem mencionada:

O caso do amor e do ódio adquire interesse particular pela circunstância de resistir ao enquadramento em nossa descrição dos instintos. Não se pode duvidar da íntima relação entre esses dois afetos contrários e a vida sexual, mas é preciso naturalmente se recusar a conceber o amor como um instinto parcial particular da sexualidade, de maneira igual aos outros. É preferível ver o amor como expressão da totalidade da tendência sexual, mas com isso não se vai muito longe também, e não se sabe como entender um contrário material dessa tendência.[1]

Segundo Lacan, o artigo está aí para mostrar que, em se tratando da finalidade biológica da sexualidade, ou seja, a reprodução, as pulsões são parciais. Acrescenta que as pulsões, em sua estrutura, estão vinculadas a um “fator econômico”. À primeira vista, Lacan parece se referir a uma das três “polaridades que governam a vida psíquica”, no caso, a polaridade econômica prazer-desprazer, valendo-se diretamente de Freud:

Resumindo, podemos sublinhar que os destino dos instintos consistem essencialmente no fato de que os impulsos instintuais são submetidos às influências das três grandes polaridades que governam a vida psíquica. Dessas três polaridades, pode-se designer a da atividade-passividade como a biológica, a do Eu-mundo exterior como a real, e por fim a de prazer-desprazer como a econômica.[2]

Por que qualificar esse aspecto com o adjetivo “econômico”? Vejamos. Lacan ensina que o fator econômico depende das condições de operação do princípio do prazer no âmbito do Real-Ich(Eu-realidade). O Real-Ich é concebido como o sistema nervoso central em sua função de controle homeostático das tensões internas. Assim, em razão da realidade do sistema homeostático, a sexualidade entra em jogo sob a forma das pulsões parciais.

Nesse ponto, Lacan subitamente avança um conceito de pulsão, articulando numa só frase pulsão, inconsciente e sexualidade. Ele diz: “A pulsão é precisamente a composição, o arranjo [montage] por meio da qual a sexualidade participa da vida psíquica, de uma maneira que deve se conformar à estrutura de lacuna/hiato [béance] do inconsciente”[3] [tradução minha]. É um conceito ainda obscuro…

Para avançar a explicação, Lacan nos situa entre os dois extremos da experiência analítica. De um lado, o reprimido/recalcado e o sintôma – homogêneos e redutíveis às funções significantes em estrutura sincrônica. Na outra extremidade, a interpretação, estruturada metonimicamente (dimensão diacrônica), análoga ao desejo.

Dominando a economia desse intervalo entre os extremos, Lacan situa a sexualidade, sob a forma das pulsões sexuais. Se assim não o fosse, a experiência analítica seria apenas uma prática divinatória, segundo Lacan.

Mais um passo e Lacan evoca a sexualidade infantil nos termos em que Freud a apresenta em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, ou seja, a sexualidade polimorfa, aberrante. Lacan, obediente a seu “retorno a Freud”, critica a leitura apressada que não enxerga o que essa sexualidade representa em essência, isto é, que todos os sujeito, da criança ao adulto, estão em pé de igualdade no que diz respeito à instância da sexualidade. É uma afirmação que parece absurda, sob a perspectiva do senso comum. Pois bem, em que termos esse argumento será viável?

Os sujeitos estão em pé de igualdade porque sua relação com a sexualidade se inscreve nas redes significantes, responsáveis pela constituição subjetiva. A sexualidade apenas se realiza por meio da operação pulsional no que as pulsões têm de parcial em relação à finalidade biológica da sexualidade (a reprodução). Essa análise de Lacan lança luz sobre o significado do adjetivo “parcial” quando qualifica o substantivo pulsão.

A linha argumentativa toma uma nova inflexão. Lacan agora associa, numa só frase, três noções cruciais – sexualidade, desejo e corpo – afirmando que a integração da sexualidade à dialética do desejo pressupõe uma espécie de aparelhamento do corpo.[4]

Sem desenvolver essa idéia, Lacan finaliza esse tópico com o que seria o obstáculo ao bom entendimento do conceito de pulsão, isto é, não enxergamos que a pulsão representa, mas apenas representa, e parcialmente, a “curva de realização da sexualidade, cujo término é a morte. De fato, o ser sexuado dirige-se à morte.

É nesse ponto que Lacan faz incidir o fragmento de Heráclito que havia escrito no quadro-negro logo no início da lição. A tradução do grego seria aproximadamente “o nome do arco é vida, sua obra é a morte”. O fragmento faz sentido se atentarmos para o jogo de palavras do original grego, utilizando as palavras homônimas que se referem à vida e ao arco. Para situar a pulsão na economia psíquica, Lacan termina a reflexão atribuindo ao modo de existência pulsional o que ele chamou de “dialética do arco-e-flecha”.

2

Lacan retoma o texto de Freud e aponta para o caminho ali trilhado para abordar o tema da pulsão: recursos linguísticos, gramaticais, jogando com as formas verbais ativa, passiva e o reflexivo. Para Lacan, esse método revelaria apenas o envelope, a superfície do fenômeno:

Resultados diversos, e mais simples, são proporcionados pela investigação de outro par de opostos, o dos instintos que têm por metas olhar e mostrar-se. (Voyeur e exibicionista, na linguagem das perversões.) Neste caso pode-se estabelecer os mesmos estágios do anterior: a) olhar como atividade dirigida a um outro objeto; b) o abandono do objeto, a volta do instinto de olhar para uma parte do próprio corpo, e com isso a reversão em passividade e a constituição da nova meta: ser olhado; c) a introdução de um novo sujeito, ao qual o indivíduo se mostra, para ser olhado por ele. (…) O esquema para o instinto de olhar poderia ser este:[5]

O fundamental é compreender a estrutura de vai-e-vém, o movimento de ida e retorno em caráter circular esboçado no artifício grammatical no texto de Freud.

Lacan diz ser notável que Freud tenha escolhido a Schaulust (o prazer de ver) e o sadomasoquismo para ilustrar esse tráfego pulsional.

Quanto a essas duas pulsões, Freud sublinha que não há apenas dois tempos, mas três. Temos então que distinguir o retorno no circuito pulsional do que aparece em um terceiro tempo, fase em que “aparece um novo sujeito”. Quando a pulsão fecha seu trajeto circular, aparece um sujeito no “nível do outro”, afirma Lacan. E é somente aí que se perfaz a função da pulsão.

Lacan chama nossa atenção para o esquema de um circuito desenhado no quadro-negro:

tableau im1

O esquema esboça uma topologia simples com os elements do conceito de pulsão. Há uma flecha em forma de curva, ilustrativa do movimento de ida e volta. A origem da flecha está associada a Drang (pressão ou impulso da pulsão). Vemos um círculo como em um plano inclinado, formando uma oval, que delimita uma superfície que Lacan define como borda, análoga ao Quelle, a fonte pulsional, i. e., a zona erógena. A tensão pulsional é sempre boucle (anel, fivela, circuito, etc) e está intimamente ligada ao seu retorno à zona erógina.

Lacan quer lançar luz sobre o mistério da modalidade de satisfação da pulsão sem que ela tenha atingido seu suposto alvo (but), a finalidade biológica da cópula reprodutiva.

Qual é então o verdadeiro alvo da pulsão parcial? Lacan faz suspense quanto à resposta e volta-se para a noção de alvo em sua equivocidade, cuja polissemia é captada pela língua inglesa.

O inglês nos fornece as palavras aim e goal, dualidade que Lacan utiliza para, respectivamente, evidenciar os sentidos de trajeto e de realização do objetivo ou acerto do alvo.

Se utilizarmos o futebol como metáfora, teríamos a distinção entre o tiro do atacante que lança a bola em direção ao gol adversário e a bola que ultrapassa o goleiro e atinge a rede, efetivamente marcando um ponto.

Lacan avança uma conclusão hipotética: se a pulsão pode ser satisfeita sem atingir a finalidade biológica, resta-nos qualificá-la de pulsão parcial, sendo sua finalidade o próprio retorno em circuito.

Na metáfora do futebol, seria um jogo em que um boomerang faria às vezes da bola, e o jogador marcaria o gol tão somente com o retorno do que havia lançado.

Cabe então perguntar o que explicaria essa satisfação do auto-erotismo da zona erógena.De fato, essa satisfação não é nada intuitiva em termos teóricos. Se partirmos do paradigma instinctual, ela não fará sentido algum. Para Lacan, há algo que permite explicar e distinguir esse modo de satisfação pulsional autoerótico: um “objeto”. Objeto que tendemos a confundir com aquilo em torno do qual a pulsão encerra-se no encontro da satisfação. Esse objeto é nada mais do que a presença – ideia aparentemente paradoxal – de um vão, de um vazio, ocupável em última instância por qualquer objeto, no sentido ordinário do termo. Nesse ponto, Lacan nomeia esse vazio com o rótulo teórico “objeto perdido pequeno a”.

Boa parte da elaboração teórica de Lacan é condensada em matemas (mathème), fórmulas algébricas compostas de símbolos que representam postulados, conceitos ou os modos como se relacionam em uma estrutura.

Um dos elementos centrais da “matematização” descritiva do funcionamento do insconciente é o objeto “a”. Para representar o aquela “presença de um vazio”, pressuposto gnosiológico do circuito pulsional, Lacan escolheu a primeira letra do alfabeto e, não me parece coincidência, a inicial da palavra francesa autre.

Curiosamente, a escolha do “a” para representar o objeto apto a abarcar qualquer outro objeto remete a um célebre exemplo literário. Em um conto publicado em 1945, J. L. Borges descreve um pequena esfera que condensava, em seu volume, toda a extensão do espaço, todos os lugares possíveis. A essa pequena esfera fantástica, Borges deu o nome aleph, primeira letra dos sistemas de escrita das línguas semíticas. A analogia à invenção de Lacan salta aos olhos. Que todos os temas da psicanálise já foram tratados nas artes, disso Freud já nos havia prevenido.

Essa letrinha, esse objeto lógico não é, segundo Lacan, a origem da pulsão oral, por exemplo. Não teria a função de representar o alimento primitivo, ele é introduzido na teoria que explica a lógica pulsional, a partir do fato de que nenhum alimento tem o condão de jamais satisfazer a pulsão oral, a não ser pela aptidão pulsional a contornar o objeto eternamente perdido.

Estabelecido o circuito pulsional e seus elementos, Lacan dá mais um passo e levanta a questão de saber como encaixar esse circuito na dinâmica pulsional mais ampla, no conjunto das pulsões parciais e na suposta sucessão de fases do amadurecimento libidinal.[6]

Responde categoricamente que “não há nenhuma relação de dedução ou gênese de uma pulsão parcial à pulsão seguinte”.[7] Não há uma metamorfose natural entre elas. Por exemplo, a passagem da pulsão oral à anal não se dá via maturação, mas pela intervenção de algo estranho ao campo da pulsão, dirá Lacan, pela intervenção e redirecionamento (renversement)[8] da demanda do Outro.

O último parágrafo desse segundo movimento da lição nos surpreende com a inserção repentina do conceito de sujeito na discussão da estrutura pulsional.

Os argumentos prévios – nas palavras de Lacan – nos levam à manifestação da pulsão à maneira de um sujeito acéfalo, já que tudo se articula em termos de tensão. O objeto da pulsão está situado no nível dessa subjetivação sem sujeito, o que Lacan chamou metaforiacamente de uma subjetivação acéfala, uma estrutura que representa uma face da topolgia. A outra face é que de um sujeito em sua relação ao significante, um sujeito furado.[9]

Em seguida, Lacan passa a articular a pulsão ao inconsciente por meio de um terceiro elemento. Dirá: “Pois bem!, porque há algo, no aparelho do corpo, estruturado da mesma maneira [em que se estrutura o sujeito pela distribuição dos investimentos significantes] a pulsão presta-se ao seu papel no funcionamento do insconciente em razão da unidade topológica dos hiatos/lacunas em jogo”.[10]

O terceiro elemento a que aludi – e aqui saio da perspectiva explicativa e para ousar uma interpretação – é a homologia topológica entre os orifícios e bordas corporais e as descontinuidades da estrutura significante. Ou seja, o esquema da estrutura da pulsão, como esboçado por Lacan no quadro-negro, tem seu suporte na topologia corporal.

Marcel Czermak[11] ajudou-me a perceber essa relação do que chamei acima uma homologia topológica. Na clínica da psicose, especialmente, no tratamento de pacientes diagnosticados com síndrome de Cotard, o autor explica a lógica da fala e dos sintomas dessa psicose por meio da teoria de Lacan. Baseando-me em seu ensino oral e escrito, pude escrever em um artigo recente:

Parece óbvio que nossos orifícios anatômicos coincidem com os furos topológicos. Nas melhores hipóteses, bem ou mal, eles se superpõem. Contudo, a experiência clínica demonstra que há sujeitos para os quais não há essa coincidência. Hipótese que implica a questão de saber o que é um furo para o parlêtre. Para tentar respondê-la, Czermak avança uma fórmula que ele atribui a Lacan: « les pulsions ne se raccordent à nos orifices que par faveur anatomique ». Um favor não equivale a uma obrigação e, efetivamente, o que nós consideramos ser orifícios naturais não os são senão em relação às nossas certezas neuróticas. A coincidência entre os efeitos da linguagem e a anatomia não é da ordem do necessário.[12]

A preocupação de Czermak, no caso, é com a situação de indistinção dos orifícios (despécification des trous) e suas consequências para o funcionamento orgânico de seus pacientes psicóticos. Nossa preocupação é mais singela: esclarecer como Lacan concebe o conceito de pulsão.