Fórum de Debate 2021 – textos

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Reunião #1
Leitura comentada da introdução do SEMINÁRIO, LIVRO IV

José Mário Simil Cordeiro

Analista Membro da Escola (AME)

Nesta introdução, Lacan recorre ao que ele chama de retorno à experiência, no sentido de pôr à prova a consistência da doutrina analítica, para ressituar o termo relação de objeto e restituir-lhe seu valor verdadeiro. Trata-se, para ele, de um tema que tem uma posição central quanto à teoria e a prática  na evolução histórica da psicanálise. Ele lembra que não abordou essa tema antes porque precisava primeiro interrogar as estruturas nas quais Freud nos mostrou que a análise se desloca e opera, principalmente no que diz respeito à relação entre os dois sujeitos presentes na análise, a saber, o analisante e o analista. Remonta então aos 3 Seminários anteriores onde, no primeiro, tratou das questões técnicas da conduta do tratamento, isto é, as noções de transferência e resistência; no segundo abordou a base da experiência e da descoberta freudiana, a saber a noção de inconsciente; no terceiro, deu um exemplo da absoluta necessidade que existe de se isolar essa articulação essencial do simbolismo que se chama o significante para  compreender o que se passa no campo paranóico das psicoses. Esses 3 Seminários culminaram na elaboração do que ele chamou de O esquema:

ESQUEMA Z

Esse esquema inscreve inicialmente a relação do sujeito com o Outro. Esta é a relação de fala virtual, pela qual o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem, sob a forma de uma palavra inconsciente. Essa mensagem lhe é interditada, é por ele profundamente desconhecida, deformada, interceptada pela interposição da relação imaginária a e a’, entre o eu e o outro. Lacan diz então que propôs esse esquema para contestar as formulações da  teoria analítica que dão prevalência, na teoria ,   à relação de objeto como primária, e funda o progresso analítico numa retificação da relação entre sujeito e objeto considerada como dual. Ele se pergunta então se a partir daí será possível construir de maneira satisfatória o conjunto dos fenômenos oferecidos à observação analítica. Ele vai então introduzir a questão de saber se é legítimo, se é fundado ou não dar à questão da relação de objeto uma situação central na teoria analítica, perguntando mesmo se essa questão está ou não nos textos de Freud.

Capítulo I

Inicia citando os Três ensaios de Freud, para nele localizar como ele implicitamente fala do objeto a cada vez que entra em jogo a noção de realidade e também a cada vez que é implicada a ambivalência de certas relações, como quando o sujeito se faz de objeto para outro, situação em que a reciprocidade , pelo viés de um objeto, é patente e mesmo constituinte. Lacan diz que Freud acentua o seguinte: que toda maneira, para o homem, de encontrar o objeto é, e não passa disso, a continuação de uma tendência onde se trata de um objeto perdido, de um objeto a se reencontrar. Ele já introduz aqui sua crítica  à noção de objeto genital, o objeto harmonioso que fundaria o homem numa realidade adequada, prova de sua maturidade. Para ele, Freud nos indica que o objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido, é o objeto reencontrado do primeiro desmame, o objeto que foi inicialmente o ponto de ligação das primeiras satisfações da criança. Uma nostalgia ligaria o sujeito a esse objeto perdido e marcaria a redescoberta do signo de uma repetição impossível, já que o objeto eventualmente reencontrado não é o mesmo objeto original, não poderia sê-lo. Há, então, uma tensão fundamental que faz com que o que é procurado não o seja da mesma forma que o que será encontrado. Esta seria a primeira forma sob a qual, em Freud, aparece a relação de objeto. Ele comenta como essa  concepção de Freud da relação do sujeito ao objeto se distancia de concepções precedentes, que são fundadas na noção de objeto adequado, cooptado à maturação do sujeito. Cita, nesse sentido, especificamente Platão  cuja perspectiva funda toda apreensão do objeto no reconhecimento, na reminiscência, posição separada da noção dada em Kierkegaard, que introduz o registro da repetição, uma repetição sempre procurada, mas nunca satisfeita, opondo-se, portanto, à noção de reminiscência. Propõe guardar essa concepção kierkegaardiana, pela qual Freud situa de saída a noção de objeto no quadro de uma relação profundamente conflitual do sujeito com seu mundo. Continua argumentando, acentuando que desde aquela época é da oposição entre princípio do prazer e princípio da realidade que se trata, na medida em que esses dois princípios não são destacáveis um do outro, implicando-se ambos numa relação dialética e que o princípio de realidade só é constituído por aquilo que é imposto para sua satisfação ao princípio do prazer. Entre os dois, para ele, existe uma hiância que não se poderia distinguir se um fosse simplesmente a continuação do outro. Em outras palavras, a satisfação do princípio do prazer , sempre latente, subjacente a todo exercício da criação do mundo, tende sempre, mais ou menos, a se realizar numa forma mais ou menos alucinada. Essa é outra posição que Freud enfatiza desde a Traumdeutung, onde ele teoriza sobre a irremediável experiência da perda do objeto. Isto para dizer, também, que não é em torno da relação do sujeito ao objeto que se centra a questão do desenvolvimento, não sendo, portanto, em Freud, central a relação sujeito-objeto. Está implícita nesta passagem a crítica que Lacan faz da leitura do texto de Freud que coloca em primeiro plano a relação de objeto como tal, na qual o sujeito vive essas relações  de um modo que implica sempre sua identificação com o parceiro, quando na verdade essas relações são vividas numa reciprocidade de ambivalência entre a posição do sujeito e a do parceiro. Essa reciprocidade entre o sujeito e o objeto,  que merece ser chamada de relação em espelho, já formula por si só tantas questões que, para tentar resolvê-las Lacan diz que introduziu na teoria analítica a noção de estádio de espelho. Tal experiência vivida pelo infans ilustra o caráter de conflito da relação dual: tudo o que a criança aprende nessa cativação por sua própria imagem e, precisamente, a distância que há de suas tensões internas, aquelas mesmas que são evocadas nessa relação, à identificação com essa imagem. Acrescenta Lacan que foi Karl Abraham um dos primeiros a ter dado essa nova ênfase ao tema quando, a partir de 1924, formulou sua teoria do desenvolvimento da libido. Sua concepção, para Lacan, funda a própria lei da análise, enquadrando tudo aquilo que aí se passa e desenhando o sistema de coordenadas no interior das quais se situa toda a experiência analítica, determinando seu ponto de encerramento,  este famoso objeto ideal, terminal, perfeito, adequado, que é apresentado como marcando  por si mesmo o alvo atingido,  a saber, a normalização do sujeito.

Capítulo 2

O termo normalização implica compor o progresso da experiência analítica colocando em primeiro plano as relações do sujeito com seu meio. Para Lacan essa posição é um retorno à posição simplesmente objetivante que coloca  em primeiro plano a existência de um certo indivíduo em sua relação mais ou menos adequada, mais ou menos adaptada ao seu meio. A psicanálise, nessa perspectiva, seria uma espécie de remédio social. Para Lacan, vê-se afirmado nessa perspectiva um paralelismo entre o estado de maturação mais ou menos adiantado das atividades pulsionais e a estrutura do Eu num sujeito dado. A  consequência disso é a instauração, no centro do análise, de uma tipologia onde há os pré-genitais e os genitais, os primeiros constituindo um Eu frágl, cuja coerência depende estreitamente da persistência de relações objetais com um objeto significativo, a perda dessas relações, ou de seu objeto, acarretando graves desordens das atividades do Eu; os genitais, pelo contrário, possuem um Eu que não vê sua força e o exercício de suas funções depender da posse de um objeto significativo, não sendo eles dependentes de uma relação objetal. Nessa concepção, em  toda neurose uma evolução normal parece ter sido estancada pela impossibilidade em que se achou o sujeito de resolver o último dos conflitos estruturantes da infância, aquele cuja liquidação perfeita atinge uma adaptação feliz. Lacan conclui sua crítica ao dizer que não se pode  em absoluto confundir o estabelecimento da realidade, com todos os problemas de adaptação que esta expõe, pelo fato de que ela resiste, se recusa, é complexa, com a noção mais ou menos implícita nessas concepções que apresentam a objetividade como característica da relação com o outro na sua forma realizada.

Capítulo 3

Lacan encerra essa introdução afirmando que essa noção de evolução pulsional não é acolhida universalmente e cita Glover como um analista que traz de volta uma exploração diferente das relações de objeto. Para esse autor, não se trata, no caso, de uma pura e simples cooptação do objeto com uma certa demanda do sujeito. O objeto aí é colocado sobre um fundo de angústia, sendo um instrumento para mascarar, enfeitar o fundo fundamental de angústia que caracteriza, nas diferentes etapas de desenvolvimento do sujeito, sua relação com o mundo. E ele ilustrará esse fato com o exemplo da concepção clássica freudiana da fobia. Em Freud, não existe nenhuma relação direta entre o objeto  e o pretenso medo que o iria colorir com sua marca fundamental, constituindo-o como um objeto primitivo. Há uma distância entre o medo em questão (que pode ou não ser um medo primitivo) e o objeto   que é constituído para manter esse medo à distância. O objeto, no caso, encerra o sujeito num certo círculo, uma fortaleza no interior da qual ele se põe ao abrigo desses medos. É um sinal de alarme, uma sentinela avançada contra um medo instituído. Se pensarmos esses medos primitivos como angústia de castração, é possível evitar uma curiosa inversão de caminho que nos havia permitido remontar a fobia à noção de uma certa relação com a angústia e estabelecer a função de proteção desempenhada pelo objeto da fobia com referência a essa angústia. Finalmente, para ilustrar seu argumento, Lacan introduz que, se tomada na perspectiva da relação de objeto, o fetiche também desempenha, na teoria analítica, uma função de proteção contra a angústia, particularmente, a angústia de castração. Em ambos o casos, fobia  e fetiche, o objeto tem uma certa  função de complementação com relação a alguma coisa que se apresenta como um furo, até mesmo como um abismo na realidade. A questão, entretanto, para Lacan é saber se existe algo em comum entre o objeto fóbico e o fetiche. E ele toma a resolução de partir da questão do que faz a diferença entre a função de uma fobia e a de um fetiche, na medida em que ambas estão centradas no mesmo fundo de angústia fundamental, sobre a qual uma e outra seriam convocadas como uma medida de proteção ou de garantia do sujeito. Em suma, a noção de objeto-fetiche, a de objeto encobridor e, ao mesmo tempo, a função tão singular dessa constituição da realidade sobre a qual Freud lançou uma luz tão fascinante como a noção de lembrança encobridora como sendo especialmente constituinte do passado de cada sujeito – eis tantas questões que merecem ser tratadas por elas mesmas e para elas mesmas.


Reunião #2
Apontamentos sobre a sessão de 28 de novembro de 1956

Alba Escalante

Psicanalista membro da ELP-Brasília

4 de julho de 1956: Lacan anuncia que, no próximo ano, vai tratar o tema das relações de objeto. Na última sessão, intitulada, o falo e meteoro, ele menciona os seguintes temas: realidade/objeto/falta. O Seminário que estamos trabalhando, esses temas são tratados, mas não esgotados:

      • Falo: “A significação do falo” (1958). Posteriormente: Fórmulas da sexuação.
      • Realidade: Da psicanálise em suas relações com a realidade (1967).
      • Objeto/realidade: O objeto da psicanálise (1965 -1966).

Os elementos mencionados só podem ser trabalhados na sua articulação com esse artifício que é a relação analítica. Assim, não se trata de teorias que explicam tudo, e que nos autorizam a fazer interpretações de qualquer coisa, em nome da psicanálise.

Em 1956, uma renomada editorial francesa publica o livro La Psychanalyse d’aujour’hiu. O volume, prefaciado pelo senhor Ernest Jones, quem declara que está “acompanhando” o trabalho dos franceses é uma “panorâmica” da psicanálise nesse pais. Temos o reconhecimento explícito de uma autoridade e seu elogio aos trabalhos de Nacht (quem vai dar os lineamentos da Clínica psicanalítica) e de Maurice Bouvet.

Maourice Bouvet é quem escreve um extenso capítulo intitulado: A clínica psicanalítica. A relação de objeto. Vejam que o Seminário de Lacan se intitula, também, a relação de objeto.

Lembremos que, na introdução do Seminário, Lacan fala da segunda parte do título: as estruturas freudianas. Eis que o texto de Bouvet apresenta a relação de objeto naquilo que ele vai chamar “as grandes neuroses”, a “neurose obsessiva” e, depois a “neurose fóbica ou histérica”. Podemos notar aqui um paralelismo e, com isso, preencher algumas lagunas sobre os interlocutores de Lacan neste seminário.

Os trabalhos apresentados no livro mereceriam uma extensa exposição. Recorto, apenas um fragmento: “imaginar uma psicanálise que negue a gênese orgânica seria tirar tudo o valor à clínica dele derivada, já que isso [tirar a gênesis orgânica] seria equivalente a negar toda lógica ao pensamento que a fundamenta (p. 86).

Esse trabalho permite localizar, de forma nítida o cerne da crítica de Lacan: desenvolvimento da personalidade em fases; localização de causas, tais como a fixação em fases pré-genitais, nas quais o instinto selvagem toma conta e faz que a pessoa adoeça. Corre, em paralelo, a direção do tratamento: apoio na parte saudável do Eu o que vai permitir uma correta adaptação.

No final de um dos parágrafos encontramos, entre parêntese, a seguinte frase: “ação mediatriz do pai, Lacan”. Ou seja, parece que Bouvet tinha conhecimento de um tal Lacan que, já nessa altura, falava de do pai. Quando Bouvet narra a sua clínica, quando fala do paciente, vemos qual é sua posição:

“Se (o paciente) se sentia prestes a ser irritado por mim, qualificava esse movimento como uma leve excitação produzida pela rigidez técnica, e quando eu lhe fiz observar que tal reação se encontrava no grupo das reações agressivas, ele (o paciente) negava com mais veemência, pois se o tivesse admitido, estaria se empenhando na conscientização de violentos sentimentos de objeção, dos quais eu teria sido objeto, coisa que ele (o paciente) de jeito nenhum desejava. O motivo é que ele (o paciente) era incapaz de suportá-lo” (p. 113 – Sem. p. 29)

Cotejando as menções de Lacan e do texto, podemos perceber que ele fazia uma leitura rigorosa dos trabalhos que estavam sendo publicados. Seu seminário consiste em apresentar essas leituras, deixando claro que sua posição na clínica (e isso não é sem teoria) diverge daquilo que o senhor Jones elogiava.

Para Lacan, a clínica não consiste nem fortalecimento do Eu, nem na identificação com o eu “forte” do analista. Ele vai se opor à ideia consensual de um modelo, alguém que, por ter à genitalidade, era um ideal, pois ele tem as credenciais.

Considero que os problemas na psicanálise se repetem, especialmente quando são silenciados. A obra de Freud e de Lacan são muito complexas e se prestam a formas diversas de sublinhar. Quando a ênfase se faz sobre uns aspectos, teremos uma psicanálise, quando a ênfase é feita em outros, a leitura pode variar. Ou seja, a prática normativa da psicanálise, não é um problema de falta de estudo, ou de formas equivocadas de leitura, mas de onde vai ser colocada a ênfase:

“Se a teoria analítica atribui ao Édipo uma função normativa, vamos lembrar que nossa experiência nos ensina que não basta que esta conduza o sujeito a uma escolha objetal, mas é preciso ainda que esta escolha de objeto seja heterossexual” (p. 205).

Sobre o objeto, tema que parecia central nos trabalhos dos analistas da época, Lacan vai introduzir uma novidade: três registros. Seguindo com rigor a leitura não massificada de Freud, Lacan vai insistir em que o objeto não é alguma coisa que se encaixe. Isso é fundamental para entender a importância de introduzir o falo como organizador. Há uma discordância e, além disso, como vimos no trabalho do ano passado, há uma alternância sujeito-objeto. Isso já se encontra desenhado, e vai desaguar na teoria da alienação-separação, formalização da constituição subjetiva, que também tivemos a oportunidade de trabalhar.

Sobre o falo, Lacan menciona que a “relação de objeto” não pode ser entendida se não introduzimos a noção de falo como um dos seus elementos, um elemento terceiro, ponto de encruzilhada onde distintos caminhos convergem. Leio isso como uma advertência da impossibilidade de ler os três registros de forma separada, ou de ficar debatendo os problemas da díade mãe-criança.

Esquema da tríade imaginária.

Podemos extrair desse esquema o seguinte: a ralação mãe-filho, encontra-se mediada pelo falo.

A introdução do falo já coloca em jogo a ordem simbólica. E, se como diz Lacan, falo é falta. Falta a quem? Falta à mãe. Isso possibilita abrir a via do desejo, e a criança passa a ser esse objeto imaginário (depois vamos ver como também falta à criança). Nesse ponto o pai, pai real, já está operando, mesmo que velado. É isso que se chama castração, castração simbólica.

Pensar que meu filho já foi um falo, não é coisa fácil de engolir. No entanto, podemos nos fazer a pergunta: que história é essa? A psicanálise não é uma ciência natural, nem uma biologia, nem possui uma gênese orgânica.

Ao longo de milhares de anos não existia diferença sexual anatômica. Todos, homens e mulheres tinham falo, vide Galeno ou o bispo de Emesa, autor de um tratado sobre a natureza humana. Onde estava o falo da mulher? Pois bem, o falo estava dentro dela. Ela saiu do forno antes de tempo, por isso não ficou pronta. Leiam o primeiro capítulo de um livro intitulado: “MAKING SEXS. BODY AND GENDER FROM THE GREEKS TO FREUD”, traduzido com pudor para o espanhol como: La construcción del sexo. O autor é: Thomas Laqueur.

Voltemos a Lacan. Depois de trazer seu esquema da tríade imaginária (mãe, criança e falo) ele diz que no centro da relação de objeto, temos o que podemos chamar de “falicismo da relação analítica”. Insistência em trazer o nosso raciocínio para o dispositivo. Ele vai advertir que reduzir o falicismo imaginário a um dado real, vai gerar problemas na clínica. Articulado a isso, Lacan lança a pergunta: o objeto, é o não é real? Tema que não vai ficar resolvido neste seminário, pois será reintroduzido no Seminário 13. Lacan vai se interrogar sobre a “realidade”, e para isso utiliza noções da física e, de forma concomitante, nos faz lembrar da língua de Freud.

Lacan não tem receio de dizer: Ora, real é uma palavra que parece remeter à realidade. Certamente ele sabe o que quer dizer consistência, imaginário, significado. Ou seja, se eu digo “real”, a primeira coisa que vem na cabeça é que se trata da realidade.

A matéria, o Stoff primitivo, exerce um tal fascínio sobre o espírito médico, que colocamos no princípio de tudo o que se exerce na análise uma realidade orgânica. Freud disse isso também, simplesmente é preciso reportar-se ali onde ele o disse, e ver que função isso tem. Ele deu a essa realidade uma importância inteiramente diversa. A referência ao fundamento orgânico não responde, nos analistas, a nada mais que uma espécie de necessidade de segurança, que os leva a retomar incessantemente essa ladainha, como quem toca madeira (pp. 31-32).

Realität e Wirklichkeit é um desses momentos em que Lacan nos lembra das consequências da psicanálise ter nascido em língua alemã. Em nosso próximo encontro vou retornar este tema.  O que está em jogo é que Lacan denuncia o fascínio do espírito médico pelo fundamento orgânico.

Voltemos para o objeto, sem esquecer a sua relação com o falo, e o deslizamento que costuma se produzir entre “falo” e pênis. Não basta dizer que falo não é equivalente a pênis, pois quando lemos Freud vemos que sim se trata do pênis. O que podemos dizer sobre este problema? Vou propor uma resposta provisória: uma coisa é o falo e outra é a “premissa universal do falo”: “making sex”. Não podemos ler os três ensaios sem levar em consideração, dentre muitas coisas, que a premissa universal do falo está articulada com a presença ausência do pênis.

Podemos pensar que se trata de um problema histórico que nos remete a: “o que há”. Ou seja, de um lado: há, presença e do outro, não há, ausência. Nos três ensaios isso é fundamental: a diferença se inscreve em função disso, e as teorias sexuais infantis são rigorosas. Hans vai dar aulas de ontologia, o que há e o que não há. Com esta menção, tento advertir alcance da teoria freudiana na sua introdução do “Fort-Da”, tantas vezes retomado por Lacan e lido de forma muitas vezes pobre.

Vejam como se esboça o estatuto de um objeto muito particular: objeto é falta do objeto. E Lacan esclarece: falta do objeto e não no objeto.

Essa falta do objeto apresenta pelo menos três formas: imaginária, real e simbólica. Essa falta, longe de ser algo negativo, é motor.

Eis que Winnicott parece ter lançado algumas ideias sobre o assunto, mas pouco sei da teoria de Winnicott. Na minha época de estudante de psicologia, achava seu trabalho muito chato. Hoje, consigo entender as razões: a proposta de Winnicott teve um papel muito importante na guerra. Os homens não estavam em casa, e as mães, a quem ele dedica muitas das suas elaborações, estavam encarregadas do cuidado das crianças;

Lacan faz algumas críticas ao objeto transicional. Meu desconhecimento e desinteresse pela obra desse autor, me impede fazer outra coisa que não seja aventurar algumas conjecturas. O objeto transicional supõe um “entre” [nem de um nem do outro, indício moebiano]; não precisa ser um objeto x, a criança cria o objeto e esses objetos (fenômenos) se introduzem na dinâmica do jogo. O que é jogar senão participar da própria eficácia simbólica?

Podemos concluir que objeto é falta de objeto. Essa falta vai se inscrever a partir dos três registros: dívida simbólica, dano imaginário e furo ou ausência real. Na castração o objeto é imaginário. Isso inscreve uma dívida simbólica, relativa à castração. O registro da falta é simbólico, mas seu objeto/falta é imaginário. Isso é muito interessante porque apresenta uma complexidade que foge a intuição. O risco, porém, é que neste momento, dado que as coisas não parecem claras, essas fórmulas sejam transformadas em mantras.

Vamos para a privação. Trata-se de uma privação no real de um objeto simbólico. O caso da biblioteca é fundamental para entender a privação. No real não falta nada, mesmo que o livro não esteja na biblioteca, há inscrição (96-B) de uma ausência. Isso quer dizer que não se pode inscrever a ausência fora da ordem simbólica. Aqui deveria haver algo, só que não. As mulheres estão privadas de falo, há inscrição de uma ausência. Privação no real de um suposto.

Sobre a frustração, só vou dizer o número de vezes que aparece esta palavra mencionada no Seminário: 143 vezes. Vejam que o que disse até agora é só um abuso, precisaremos de cuidado para não ficar traumatizados.