ENTRE DÍVIDAS E CULPAS: SACRÍFICIO

/ENTRE DÍVIDAS E CULPAS: SACRÍFICIO

Em A significação do fato [Lacan] afirma que a sociedade humana e a animal repousa na linguagem; ela permite o intercâmbio e a circulação do dom como fato social total.

Outras sociais circulam na sociedade.

Além das necessidades e sua satisfação, circulam o desejo e o desejo do outro, e o que possibilita essa circulação é a instauração da metáfora paterna.

A castração – resultado da eficácia simbólica do Norte do Pai – une desejo e lei; está vinculada à ordem simbólica instituída, que pressupõe uma longa cadeia de intercâmbio de dons e renúncias das quais o sujeito não pode se isolar e, por isso, o resultado é a inscrição de uma dívida simbólica inconsciente: é necessário desenvolver o que se recebeu para fazer circular os dons. Ninguém pertence a si mesmo, sempre ronda, em torno da subjetividade e da civilização, uma divida com o outro. Daí que, no dom, esteja implicada toda a cadeia simbólica humana, cadeia de renúncias, perdas, substituições e doações.

O que se oferece no dom? Oferece-se a palavra e uma promessa, doa-se o que não se tem: a falta por acaso, não é a partir disso que Lacan elabora a definição de amor: dar o que nada por nada que circula uma promessa e uma demanda de reconhecimento, um apelo ao desejo do Outro. Trata-se de uma dádiva que vai para além de um mero intercâmbio, uma cessão para obter reconhecimento no desejo do Outro. Por isso, o amor é uma forma de sacrifício, lado simbólico do sacrifício que implica renúncias. Lacan reúne, ainda em suas primeiras formulações, o dom, o sacrifício e o amor (a falta), colocando-os em sequência em torno de castração operação simbólica que se depreende do Nome do Pai.