Comentário livre da Proposição de 9 de outubro de 1967

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Comentário livre da Proposição de 9 de outubro de 1967

 

Os objetivos da Proposição são explicitamente lançados desde o início: tratar de estruturas asseguradas na psicanálise e de garantir sua efetivação no psicanalista. As estruturas asseguradas podem ser lidas como as que Freud lançou desde o início de seu ensino a propósito não só dos fundamentos doutrinários da psicanálise, como também das estratégias de aplicação, originalmente  dirigidas à abordagem da questão das estruturas clínicas; garantir sua efetivação no psicanalista aponta para a formação de operadores da práxis então inventada: não há psicanálise sem psicanalistas, o que supõe estratégias para sua formação. Esse tratamento agora proposto é oferecido à Escola criada em 1964, 3 anos após o funcionamento de órgãos esboçados com base em princípios limitativos, funcionamento esse a partir do qual se institui o novo que pretende ser a solução para o problema da Sociedade Psicanalítica. Lacan se refere aqui à Sociedade oficial criada por Freud, do qual foi excluído por razões principalmente doutrinárias e técnicas. Qual seria o problema que a Proposição pretende recortar e dar solução? Lacan é claro: é a distinção entre e hierarquia e gradus dentro da instituição, buscando uma nova lógica coletiva de convivência entre os analistas. Lacan vai então produzir um passo e mostrá-lo aos analistas; em seguida propor condições de produzir aparelhos de execução institucional que possam reproduzir  o passo que está sendo criado. Essa distinção começa por nos fazer pensar o gradus como primeiramente considerando o real em jogo na experiência analítica, além de colocar na superfície do fazer escola o campo de provas a serem dadas por aqueles que sustentam ou se orientam pelas funções em questão, diferentemente da hierarquia, que coloca nessa superfície o campo do reconhecimento sustentado no imaginário.

Parte de um princípio inscrito nos textos originais de sua Escola: “o analista só se autoriza por ele mesmo (  ou por si mesmo, ou por dele mesmo, conforme a tradução preferida ), Esse princípio decide a posição de Lacan quanto à questão dos fundamentos  da formação do analista, até então praticados  pela IPA com base na avaliação técnica exercida pelo analista didata, numa posição verticalizada que implica principalmente a questão do poder atribuído a esse analista de saber quem pode ou não ser autorizado a se colocar no lugar de analista. O fato de propor esse princípio não impede que a Escola garanta que um analista dependa de sua formação, isto é, autorizar-se por si mesmo não implica um ato isolado do analista, independente dos fatores doutrinários e institucionais que desde Freud implicam essa autorização: a análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão. A Escola não só pode garantir esses dispositivos, como deve fazê-lo, mesmo por que o analista pode querer essa garantia  e ir mais além através dela: tornar-se responsável pelo progresso da Escola e tornar-se psicanalista da própria experiência, duas maneiras de inserção de sua experiência singular no coletivo da Escola. Essa inserção, a partir de então, vai corresponder a 2 formas:

I)- AME, ou analista-membro da Escola, constituído simplesmente pelo fato de a Escola o reconhecer como psicanalista que comprovou sua capacidade. Comprovar sua capacidade tem o valor de tornar viva a experiência da prática analítica dentro da  Escola e é uma garantia que provém dela, na qual só se admite a entrada com base no projeto de um trabalho, não importando em princípio a proveniência e a qualificação do candidato. Essa qualificação se dará no funcionamento e nas provas daí advindas;

II- AE, ou analista da Escola, a quem se imputa estar entre os que podem dar testemunho dos problemas cruciais, nos pontos nodais  que se acham eles no tocante à análise, especialmente na medida em que eles próprios  estão investidos nessa tarefa, ou, pelo menos, sempre em via de resolvê-los. Por ser um lugar que implica que se queira ocupa-lo, só se pode estar nele  por tê-lo demandado de fato, senão formalmente. O fato de exigir do pretenso AE “um testemunho dos problemas cruciais” o implica numa forma de inserção dentro do coletivo da Escola que vai não só torná-lo responsável, como o AME, pelo progresso da
Escola, como, mais do que isso, dar o testemunho de sua experiência singular da análise, tornando-se analista da própria experiência.

Por essas duas formas de inserção, fica estabelecido que a Escola pode e deve garantir a relação do analista com a formação que ela dispensa. Lacan vai propor encontrar uma nova lógica de autorização  que evite os inconvenientes (e os malefícios) do regime vigente nas sociedades psicanalíticas existentes, partindo da constatação de que existe uma regra do gradus implícita numa Escola, mais do que numa sociedade, porque nesta, por ter apenas interesses científicos, não há necessidade de gradus. Esse gradus supõe o saber como verdade, mas como insabido posto que é um saber inconsciente. Confrontar-se com essa questão do gradus seria a própria continuação da escolha que os analistas fizeram por seguir Lacan na fundação da Escola, o que significou para ele Lacan uma opção que fizeram pela sobrevivência de seu ensino. Foi para esse grupo em dificuldades de encontrar uma saída que Lacan ofereceu  a fundação da Escola. E esse ensino tem uma característica que Lacan acentua que é o de falar do que é a psicanálise, questão que em outros lugares não comparece por cuidar-se ali apenas de que ela seja conforme a regras ortodoxas fixas e imutáveis. Essas regras são tributárias da existência de uma solidariedade entre a pane ou os desvios mostrados pela psicanálise e a hierarquia que nela impera, designada por Lacan de uma cooptação de doutos. Essa cooptação promove o retorno a um status de imponência, que é uma sombra sobre a prática da psicanálise. Ocorre que há um real em jogo na própria formação do psicanalista e que as sociedades existentes fundam-se nesse real. Será em torno dessa questão que toda a proposição se desenvolverá. Lacan acentua o fato de que esse real provoca seu próprio desconhecimento ou até produz sua negação sistemática. Em função desse desconhecimento e dessa negação, Freud teria corrido o risco de certa parada, podendo até ter visto nela uma proteção possível para evitar a extinção da experiência.  Essa negação e esse desconhecimento cujo término, objeto e até o objetivo revelam-se  inarticuláveis, mesmo depois de meio século de experiência ininterrupta. É nesse ponto da relação de garantia entre a Escola, lugar da psicanálise no mundo e o analista se havendo com sua autorização que Lacan vai apontar uma falha, que ele chamará falta de inventividade para exercer um ofício. A proposição pretende remediar isso, constatando a falha, mas longe de pensar em encobri-la. Ele quer colher nessa falha a articulação que falta.

Para tanto, como introdução, Lacan se apoiará nos dois momentos de junção do que ele chamará, respectivamente, de psicanálise em extensão (tudo o que resume a função da Escola como presentificadora da psicanálise no mundo) e psicanálise em intensão (a psicanálise didática, que não faz mais do que preparar  operadores).  Esses conceitos de intensão/extensão Lacan extraiu da lógica proposicional de Frege, o qual propõe que as proposições intensionais concernem apenas ao efeito de sentido (Sinn), enquanto as proposições extensionais incluem a relação com o real (bedeutung). O que está implícito aí é a idéia de que na psicanálise como intensão (no sentido tópico), ou seja, na análise didática, há um não-todo saber do analista didata, um não-todo saber que marca as proposições extensivas relativas à existência ou à inexistência  do que faz com que um dia haja o analista. Isto tem a ver com a questão da amnésia que impossibilita que o intensivo sustente o testemunho do verdadeiro da passagem analisante-analista, necessitando do extensivo para capturar essa experiência, pois é nesse lugar da psicanálise em extensão que há possibilidade de proposições referenciais sobre essa passagem, graça aos passadores que possibilitam a um júri responder com um sim ou um não. A que se visa aqui é  a constituir a psicanálise como uma experiência original, levando-a ao ponto de em que nela figure a finitude, para permitir o efeito de tempo a  posteriori que lhe é radical. Tal experiência é essencial para isolá-la  da terapêutica, pois na psicanálise é impossível enunciar a definição de terapêutica como restabelecimento de um estado primário ( restitutio ad integrum ). Em outras palavras, a cura na psicanálise não é compreendida no sentido médico.

Lacan passa a dizer dos pontos de junção onde têm que funcionar os órgãos de garantia de uma Escola, que são o começo e o fim de uma psicanálise. Então, no começo está transferência e ela está aí graças ao psicanalisante. E o que é a transferência? Lacan se admira inicialmente  em  ninguém tê-lo objetado quanto à idéia da intersubjetividade, utilizada no início de seu ensino como ponto de partida na experiência da linguagem. Ele vai dizer que, quanto à transferência, a intersubjetividade não só cria uma objeção como é obstáculo a ela. Ele diz que sua utilização no início do seu ensino  faz parte das concessões educativas   que teve que fazer em nome do fabuloso obscurantismo em que teve que proferir seus primeiros seminários. Nas alturas de sua Proposição, ao haver definido a distinção entre o outro imaginário ( pequeno outro) e o lugar da operação da linguagem (grande Outro), ele indica com bastante clareza que nenhum sujeito é suponível por outro sujeito, se esse termo tiver que ser tomado pelo lado de Descartes. O sujeito suposto saber é, então, o eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência e, nesse caso da suposição de saber, um sujeito não supõe nada, ele é suposto. Suposto pelo significante  que o representa para outro significante.

S_______________>Sq

 _________________________  

s(S1,S2,S3…”)

Esse é o algorítimo da transferência. Na primeira linha o significante S da transferência, com sua implicação de um significante qualquer (Sq). Se esse significante é denominável por um nome próprio,  não é por se distinguir pelo saber. Abaixo da barra, o s representa o sujeito resultante, que implica dentro dos parênteses o saber, supostamente presente, dos significantes que estão no inconsciente. Vê-se que, embora a psicanálise consista na manutenção de uma situação combinada entre dois parceiros(psicanalisante-psicanalista), ela só pode se desenvolver ao preço do constituinte ternário, que é o significante introduzido no discurso que se instaura: o sujeito suposto saber, esta uma formação não de artifício, mas de inspiração,  destacada do psicanalisante. O que habilita o psicanalista a responde a essa situação que não envolve sua  pessoa? O sujeito suposto saber  não é real de  fato, como também não há nenhuma necessidade  de que o sujeito em atividade na conjuntura, o psicanalisante, lhe faça essa imposição. O que nos importa aqui é o psicanalista em sua relação com o saber do sujeito suposto, relação direta. O psicanalista nada sabe do saber suposto, mas o isto não quer dizer  que o analista se dê por satisfeito por saber que nada sabe, pois o de que se trata é do que ele tem de saber. O que ele tem de saber? Nada em particular, mas se articula numa cadeia de letras tão rigorosa que, sob a condição de não se errar nenhuma, o não sabido se ordena como o quadro do saber.