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Azul é a cor mais quente ou sobre o enigmático gozo feminino

Abílio Ribeiro Alves

*Texto apresentado na Reunião Lacanoamericana em outubro de 2015.  Montevideo-UY

Oh, eu imploro: posso seguir?

Oh, eu lhe pergunto: por que nem sempre?

Seja o oceano onde eu deságuo

Seja meu somente, seja água e eu estou passando

Você é o meu rio correndo forte, profundo e selvagem (Lykke li, I follow Rivers).


azulcormaisquenteAzul é a cor mais quente
 (Le Bleu est une couleur Chaud) é uma adaptação das histórias em quadrinho homônimas, escritas e desenhadas por Julie Maroh e filmada pelo diretor Abdellatif Kechiche. Exibido nos cinemas em 2014, sua temática provocou muitas reações: favoráveis e adversas. É importante notificar que no Brasil a venda do DVD chegou a ser proibida, eu o escolhi para trabalhá-lo na Lacanoamericana de 2015 por sua atualidade no que diz respeito à clínica.

Temos notícias de que o fascínio, o arrebatamento, o ciúme, o amor e o desejo sempre estiveram presentes nas relações e histórias entre mulheres. “O Caso Dora” e o da “Jovem homossexual” foram fundamentais para Freud na construção de sua trama teórica. Hoje, as análises com adolescentes têm apresentado casos frequentes de namoros entre meninas e mais, relacionamentos entre garotos e garotas que se sustentam num triângulo amoroso cuja terceira figura é outra garota. Azul é a cor mais quente nos oferece a oportunidade de pensarmos sobre questões relativas ao amor sensual entre mulheres.

Poderíamos apontar para disseminação de um discurso liberal na forma do Poliamor que franquearia livremente as diversas formas de amar. Entretanto, como já afirmei, essa temática não é absolutamente nova. A adolescência é um tempo em que as identificações e as escolhas objetais relacionadas ao Édipo serão postas à prova. Em Três ensaios sobre a sexualidade (1905), Freud nos fala da atitude da criança frente à visão do órgão genital feminino: a menina reconhece a falta do pênis e a reivindica, o menino nega a sua ausência. Podemos afirmar com Freud que o sexo feminino está foracluído, a única inscrição sexual no inconsciente é a do sexo falo. O tempo da adolescência e o encontro com o real do sexo irá atualizar a ignorância e o enigma sobre o “Outro sexo” _ aquele que faz a diferença por não estar todo adstrito ao falo. Então, partamos para os elementos que o filme nos oferece.

Só podemos falar em heterossexualidade porque o gozo feminino faz objeção ao gozo fálico: um gozo não-todo; um gozo outro. A heterossexualidade implica em por a posição e o gozo feminino em causa.

Em Azul é a cor mais quente, Adèle é uma jovem de quinze anos, oscila entre ainda ser uma menina e alguns indícios de uma jovem mulher que começa a desabrochar.  Vive um breve romance com Thomás, um belo jovem e colega de colégio. Todas as meninas são apaixonadas pelo rapaz. Entretanto, a personagem não vive nesse encontro amoroso e no sexo nada que a deixe muito envolvida. Ela se despede e ele em lágrimas.

Atravessando a rua, é arrebatada pela vista de uma jovem mulher de cabelos azuis que passa abraçada a outra com visual bem masculino. Essa cena é muito importante no filme, pois o diretor nos dá a ver seu inexplicável fascínio: pelo azul do cabelo ou pelo modo como se faz acompanhar de outra jovem?

Saindo da escola é provocada por uma colega que a seduz, no entanto, a mesma lhe dirá depois que era só uma brincadeira. Adèle está confusa e pede a seu amigo para levá-la a um “reduto” de homossexuais. Já sozinha acaba entrando num bar cuja frequência é totalmente feminina. As cantadas são bem ao estilo dos homens, até que ela é acudida por Emma, justamente a jovem mulher de cabelos azuis. Emma é ao mesmo tempo firme, sedutora, provocativa, porém, delicada. A sua abordagem se diferencia das outras.

Elas iniciam um intenso romance e, por isso, Adèle será ofendida pelas colegas na porta da escola. Ela ainda é uma menina desabrochando a flor mulher, adora literatura, mas o seu objetivo é ser professora infantil. Emma já é uma jovem mulher que insinua saber o que quer: estuda Belas Artes; está perto de se tornar uma artista. Estão apaixonadas cada uma ao seu jeito.

Protagonizam algumas cenas íntimas de sexo que são muito fortes, esteticamente muito bonitas, mas inquietantes, o modo como elas se exploram e gozam intensamente. Uma analisante, que se diz feliz com o casamento heterossexual, confidenciou no divã que quase não dormiu na noite em que viu o filme. Muitos comentários foram feitos sobre as cenas ditas “reais ou explícitas”: da aversão, passando por uma excitação incômoda, até uma impressão estética de alto impacto. As atrizes e o diretor expuseram o mal-estar entre eles nas entrevistas da premiação. Caso posteriormente resolvido.

O amor vivido por elas dá o contorno necessário ao que ali se passa, as cenas amorosas temperam o cru daqueles corpos femininos nus e excitados. É um filme sobre o amor e o gozo vivido entre duas mulheres. Uma parece saber o que quer, a outra é errante, se deixa levar pelo fascínio e necessidade de que a primeira a conduza: o que é ser mulher? Adèle parece buscar em Emma essa resposta. Emma oferece seu primeiro trabalho artístico à Adèle como prova de seu amor. Durante a festa comemorativa do vernissage, a presença de uma terceira mulher lindamente grávida (Lise) irá perturbar a mais jovem (Adèle). Esta última também é atraída em sua atenção por um belo homem jovem _ um ator.

Nesse mesmo evento o tema do gozo feminino virá à tona. Um amigo bissexual dirá que o gozo masculino é muito inferior ao gozo das mulheres. Uma amiga acrescenta que o gozo de uma mulher vai além do corpo. Uma terceira sugere: “um gozo místico”. O personagem bissexual toma o lugar do vidente Tirésias e cita a mesma passagem trabalhada por Lacan no cap. XIV do seminário 10: a angústia:

Depois de deitar-se com sua mulher Juno, Júpiter a faz uma provocação: “A volúpia que vocês mulheres experimentam é maior do que a do homem”. Júpiter resolve consultar Tirésias sobre sua tese, justamente este que durante sete anos foi mulher. O vidente prontamente responde: “O gozo da mulher é realmente bem maior do que o do homem”. Tirésias então foi punido com a cegueira por Juno, justamente por ter revelado esse segredo tão íntimo.

O gozo, em questão aqui, nos levaria da lógica fálica do ter ou não ter o falo para a pergunta sobre o ser feminino_ uma ex/sitência que não se reduz às específicas localizações dos genitais. É Lacan quem postula um gozo além do falo; ele propõe um gozo não localizável, embora vivido no corpo e além dele, não todo referido ao significante. Uma mulher não pode falar sobre isso, embora saiba quando o experimenta_ nem todas o experimentam. Entre Adèle e Emma há um gozo que se dá a ver e cuja moldura do amor vem torná-lo suportável.

“O sexo da mulher não lhe diz nada, a não ser por intermédio do gozo do corpo” (Lacan, seminário 20, p.15). Esse gozo que se experimenta e sobre o qual nada se sabe, não é ele o que coloca o falante numa relação com a ex-sistência do Outro sexo? E por que não interpretar essa face do Outro como a face de Deus enquanto suportada pelo gozo feminino (não cito literalmente, idem, p.103)? O gozo feminino aqui é equiparado ao gozo do Outro _ no significante e mais além dele, no real.

Já o lesbianismo seria uma denominação restrita à lógica fálica de se ter ou não o falo, alguém identificado ao dano imaginário de não tê-lo escolhe como objeto de amor e desejo quem também não o tem. Assim, podem compensar-se de não tê-lo pela via dessa escolha. Recusar como objeto de amor e desejo aquele que o tem imaginariamente seria uma forma não só de castrá-lo, como ainda de passar a tê-lo ou mesmo sê-lo de certa maneira. Seria esse o caso de nossas personagens?

Emma em certos momentos parece encarnar o falo que falta numa mulher, mas não só isso; para Adèle, a parceira muitas vezes é aquela suposta portar um saber precioso sobre o enigma do ser e do gozo feminino. Elas se encontram no bar e se aproximam justamente por que a abordagem entre elas se diferencia do modo comum e masculino das outras mulheres. Um amor cerca o gozo impossível de apreender que se dá entre elas. Em nenhum momento elas nomeiam seu desejo como lésbico. Esse é inclusive o motivo da briga entre Adèle e suas colegas. Ela não se reconhece nessa nomeação de sua escolha e de seu desejo dito como lésbico.

Há um momento no filme em que a interferência masculina acarreta uma reação de asco em Emma: “Você me beijou depois de chupar o pau dele. Eu tenho nojo de você”.  Aqui há um limite. Aqui elas estão restritas ao campo do gozo fálico e entram num embate, não podem mais ter uma a outra? Algo se quebrou. Emma parece sentir o golpe, o fato de Adèle buscar o objeto do desejo, o falo, num parceiro masculino. Emma se vê fracassando no logro de seu semblante: sua atitude e cabelo azul.

Nesse ponto, cabe um breve comentário sobre o triângulo amoroso que se forma entre adolescentes, tal como observei inicialmente sobre a clínica: uma menina; um menino e outra menina. Para uma das meninas, ela precisa do amor da outra, para que, através desse jogo especular, possa se deixar fazer objeto de desejo para o menino. Para o menino, ele precisa da parceira de sua namorada, porque o semblante fálico que encarna vacila diante do enigma que a namorada é para ele_ o além do falo. Assim, a terceira, a outra, poderá supri-lo quanto às demandas amorosas da namorada compartilhada. Carlinhos Brown canta que “a namorada tem namorada”.  Cabe, enfim, à terceira figura, a outra, usufruir, gozar, de uma posição privilegiada nesse jogo entre os três. Dessa maneira, podemos perceber o quanto que a dialética fálica, do ter ou não tê-lo ou do ser ou não sê-lo, esbarra no mais além do enigma do ser e do gozo feminino. O sexo feminino foracluído do tempo estruturante do infantil retorna na adolescência, no real do gozo do corpo e além dele para o falante que com ele se depara.

Voltemos às protagonistas do filme em questão. O amor e o gozo que experimentavam as deixavam mais além, no real de um impossível de dizer. Elas experimentavam suas existências fora daquilo que pudesse ser dito, apenas vivido. Seria a proximidade ou encarnação do Gozo do Outro o obstáculo entre elas?  Quero dizer, a iminência do encontro com um impossível ou com a loucura feminina? Por que será que Emma recorre a uma mulher que está grávida e será mãe? Por que Adèle cede ao apelo do companheiro de trabalho, ou seja, um rapaz? Só nesse momento são homossexuais, só nesse instante visam o mesmo objeto: o falo.

Tomemos agora a contrapartida na homossexualidade máscula em Brokeback Mountain, os cowboys estariam capturados e adstritos ao gozo fálico, viril e potente, que cultuaria o objeto do qual se goza da posse? O caso do encontro e do culto ao gozo viril daqueles que se escolhem por tê-lo, “os iguais” na posse do falo. Ou não? Seria o amor o que aqueles dois homens experimentam como abertura e tentativa de inscrever nessa relação uma diferença além do rochedo da castração ou do embate viril? Podem os brutos ou “os iguais” amar a diferença? Acho que essa é a sensibilidade do diretor Ang Lee nesse filme. Uma resposta ao estilo dos cowboys americanos à questão foucaultiana sobre se é possível dois homens se amarem.

O gozo experimentado pelas duas personagens em Azul é a cor mais quente as lança num além do falo, numa experiência real e impossível de dizer ou suportar. O amor, nesse caso, seria a tentativa de situá-las no gozo fálico, através de demandas fálicas. Resituando o falo como limite e lei que as impedisse de sucumbir à devastação dessa experiência inominável. O gozo feminino está não- todo referido ao falo e sua lei_ a castração_  há um além onde se situa o gozo do Outro,então, o amor, nesse caso, seria o termo que o enquadra. O enquadramento do amor sobre o gozo se faz notar nas telas que Emma dedica à amada.

Para não concluir, acrescento um breve comentário feito por uma mulher, numa das páginas da Internet sobre o filme: “O final deixou a desejar”. Isso que é dito e ouvido em primeira instância como crítica negativa, talvez seja tomado pelo diretor e pelas atrizes como o próprio objetivo da arte: cernir um vazio como causa desejante. Obrigado!

 

Referências bibliográficas:

LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

--------------------. O seminário, livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

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